Alguns temas moorianos, por Noah Lemos

Tradução de L. H. Marques Segundo

G. E. Moore (1873-1958)

G. E. Moore se atracou com questões sobre o conhecimento e ceticismo ao longo de sua carreira, examinando e respondendo vários argumentos céticos em diversos ensaios influentes. Moore está entre os mais proeminentes membros da tradição de senso comum na filosofia, uma tradição que inclui o filósofo escocês novecentista Thomas Reid e o filósofo do século XX Roderick Chisholm. É característico do “comum-sensismo” sustentar que de fato sabemos muitas das coisas que ordinariamente consideramos saber, e que as nossas perspectivas filosóficas deveriam se adequar ao fato de as sabermos. Thomas Reid, por exemplo, entendia que o empirismo de Hume implicava que não temos conhecimento do mundo material, do futuro, do passado, de outras mentes e de nós mesmos enquanto sujeitos contínuos de experiência. Reid considerava ter Hume mostrado que os custos do empirismo é o completo ceticismo. Diz Reid:

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Introdução ao Novo Testamento

Prof. Dale B. Martin

Eis um ótimo curso introdutório de história da religião, oferecido pelo Prof. Dale B. Martin na Universidade de Yale, disponível na Open Yale Courses.

Descrição: Esse curso fornece um estudo histórico das origens da cristandade através da análise da literatura dos movimentos cristão iniciais no contexto histórico, concentrando-se no Novo Testamento. Embora temas teológicos ocupem grande parte da nossa atenção, o curso não tenta qualquer apropriação teológica do Novo Testamento enquanto escritura. Antes, enfatizar-se-á a importância do Novo Testamento e de outros documentos cristão iniciais enquanto literatura antiga e fontes para o estudo histórico. Um tema organizador central será o foco nas diferenças nas primeiras cristandades.

São 26 aulas de 50 min. cada. É também uma ótima oportunidade para aqueles que precisam treinar o inglês.

O argumento ontológico, por Anselmo

Tradução de L. H. Marques Segundo

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[Apresentação de Santo Anselmo]

Portanto, Senhor, vós que nos concede o entendimento pela fé, conceda que, tanto quanto me seja útil, eu possa compreender que vós existis na medida em que acreditamos nisso, e que vós sois aquilo que acreditamos que és. Ora, acreditamos que és algo acerca do qual nada maior pode ser pensado. Assim, é possível que tal natureza não exista, uma vez que “O néscio diz em seu coração ‘Não há Deus’” (Salmos 14:1; 53:1)? Contudo, esse mesmo néscio, ao ouvir-me dizer “algo acerca do qual nada maior pode ser pensado”, certamente compreende aquilo que ouve; e aquilo que compreende existe em seu entendimento, ainda que não compreenda que existe [na realidade]. Quando um pintor, por exemplo, planeja o que vai pintar, ele tem essa coisa em seu entendimento, muito embora ainda não compreenda que ela exista, uma vez que ele ainda não a pintou. Mas uma vez que a tenha pintado, ele a tem em seu entendimento assim como ela existe, pois ele agora a pintou. Assim, até mesmo o néscio tem de admitir que algo acerca do qual nada maior pode ser pensado existe pelo menos em seu entendimento, uma vez que compreende isso quando o escuta, e seja o que for que seja compreendido existe no entendimento. E é certo que aquilo acerca do qual nada maior pode ser pensado não pode existir apenas no entendimento. Pois se existe apenas no entendimento, pode-se também pensar que existe na realidade, o que é maior. Assim, se aquilo acerca do qual nada maior pode ser pensado existe apenas no entendimento, então aquilo do qual algo maior não pode ser pensado é aquilo ao qual algo maior pode ser pensado. Mas isso é claramente impossível. Portanto, não há dúvidas de que algo do qual algo maior não pode ser pensado existe tanto no entendimento quanto na realidade. Continuar lendo “O argumento ontológico, por Anselmo”

As cinco vias, por Tomás de Aquino

Tradução de L. H. Marques Segundo

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Artigo 3: Deus existe?

Parece que Deus não existe:

Objeção 1: Se um, de um par de contrários, fosse infinito, destruiria totalmente o outro contrário. Mas pelo nome “Deus” designamos certo bem infinito. Portanto, se Deus existisse, não haveria qualquer mal. Mas há mal no mundo. Portanto, Deus não existe.

Objeção 2: Não se faz com mais princípios aquilo que pode ser feito com menos princípios. Mas parece que tudo o que acontece no mundo poderia ter sido atingido por outros princípios, ainda que Deus não existisse; pois as coisas que são naturais remontam à natureza por princípio, ao passo que as coisas dotadas de propósito remontam ou à razão ou à vontade humanas por princípio. Portanto, não há a necessidade de reivindicar a existência de Deus.

Mas contrário a isso: Êxodos 1:14 diz sob a pessoa de Deus, “sou Quem sou”.

Respondo: Há cinco vias para se provar que Deus existe. Continuar lendo “As cinco vias, por Tomás de Aquino”

O relógio e o relojoeiro, por William Paley

Tradução de L. H. Marques Segundo

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Apresentação do argumento

Suponha que, ao cruzar um deserto, tropeço numa pedra e, perguntado como aquela pedra foi parar ali, respondo, por falta de evidência em contrário, que ela sempre esteve ali; talvez não seja muito fácil mostrar a absurdidade dessa resposta. Mas suponha que encontro um relógio sobre o chão; inquirido sobre como o relógio apareceu naquele lugar, dificilmente eu cogitaria a resposta anteriormente dada – a de que, tanto quanto sei, o relógio sempre esteve ali. Mas por que essa resposta não serve para o caso do relógio assim como serviu para o caso da pedra? Por que ela não é admissível no segundo caso embora o seja no primeiro? Continuar lendo “O relógio e o relojoeiro, por William Paley”

Relativismo epistemológico, por Richard Feldman

Tradução de L. H. Marques Segundo

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Um conjunto final de questões sobre a Perspectiva Padrão emerge da consideração da Perspectiva Relativista. Assim como a Perspectiva Naturalista e ao contrário da Perspectiva Cética, a Perspectiva Relativista não sugere tanto que a Perspectiva Padrão seja falsa, mas antes que é incompleta e que não leva em conta considerações importantes. O ponto de partida da Perspectiva Relativista são as observações de que há grande diversidade cognitiva e que pessoas aparentemente razoáveis podem discordar substancialmente. A Perspectiva Padrão parece ignorar isso. Este capítulo examinará esses pontos e suas implicações. Continuar lendo “Relativismo epistemológico, por Richard Feldman”

Escrevendo ensaios filosóficos, por Michael Tooley

Tradução de L. H. Marques Segundo

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Como começar a escrever ensaios filosóficos? Alguns de vocês podem já ter tido instruções detalhadas sobre esse tópico em outras disciplinas. Alguns, contudo, podem não ter recebido. No que se segue, então, vou oferecer algumas sugestões sobre as características que considero tornarem melhor um ensaio. Continuar lendo “Escrevendo ensaios filosóficos, por Michael Tooley”

Correção de LP e demonstração por indução, por Ted Sider

Tradução de L. H. Marques Segundo

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[…] Consideramos as abordagens sintática e semântica para a lógica proposicional (LP). Em cada caso, introduzimos as noções formais de verdade lógica e consequência lógica. Na abordagem semântica essas noções envolveram a noção de verdade em interpretações de LP. Na abordagem sintática, consideramos duas definições formais, uma envolvendo demonstrações por sequentes, e outra envolvendo demonstrações axiomáticas.

Que complicação! Temos múltiplos tratamentos formais para as nossas noções lógicas. Mas de fato, pode-se mostrar que todas essas três definições produzem exatamente os mesmos resultados. Provarei isso aqui apenas para a noção de um teorema (a última linha de uma demonstração axiomática) e para a noção de uma fórmula válida (verdadeira em todas as interpretações de LP). Continuar lendo “Correção de LP e demonstração por indução, por Ted Sider”

Maxwell e a distinção observacional-teórico, por Martin Curd & J. A. Cover

Tradução de L. H. Marques Segundo

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Empirismo Lógico

Na primeira metade do século XX os positivistas lógicos e seus sucessores, os empiristas lógicos, abordaram a questão do realismo científico de modo distinto refletindo sobre o papel da observação em dois tipos de atividades científicas.[1] Por um lado, os cientistas procuram descobrir leis empíricas que expressam generalizações sobre fenômenos observáveis como, por exemplo, o movimento dos corpos ou as relações entre a pressão e o volume de um gás. Por outro lado, os cientistas também formulam teorias científicas desenvolvidas que unificam, explicam e prevêem tais leis e suas conseqüências observacionais em termos de forças agindo sobre os corpos, moléculas de gases e suas energias cinéticas média, e assim por diante. Assim, era natural para os empiristas lógicos enfatizar a distinção entre os componentes observacionais de uma teoria, que se referem a objetos e propriedades que podem ser diretamente observáveis, e os componentes teóricos, que aparentemente se referem a objetos e propriedades que não são diretamente observáveis. Continuar lendo “Maxwell e a distinção observacional-teórico, por Martin Curd & J. A. Cover”

A província da filosofia, por J. J. C. Smart

Tradução de L. H. Marques Segundo

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Pretende-se que este livro seja um ensaio de filosofia sintética tanto quanto um esboço de uma visão de mundo coerente e cientificamente plausível. Muitos filósofos atualmente questionariam a legitimidade de tal tarefa. Será bom, portanto, que eu discorra um pouco sobre a natureza da filosofia tal como a concebo. Nenhuma resposta pode ser dada à pergunta “O que é a filosofia?” uma vez que as palavras “filosofia” e “filósofo” têm sido usadas de diversas maneiras. Algumas pessoas, por exemplo, pensam que a filosofia oferece os consolos da religião, e que o filósofo é um homem que recebe tranqüilamente as bofetadas da vida. Isso tem muito pouco a ver com o modo com que os acadêmicos, incluindo a mim próprio, usam a palavra “filosofia”. Não me sinto particularmente desqualificado enquanto filósofo acadêmico porque não sou “filosófico” quando perco a primeira tacada numa partida de críquete. Uso a palavra “filosofia” de modo a me referir a uma tentativa de pensar clara e compreensivamente sobre: (a) a natureza do universo, e (b) os princípios de conduta. Em suma, a filosofia se preocupa primariamente com o que há no mundo e com o que devemos fazer nele. Note que eu disse “pensar claramente” e pensar “compreensivamente”. A primeira expressão se liga à concepção prevalecente da filosofia como análise lingüística ou conceitual, e a última à reconstrução racional da linguagem que fornece um meio para a expressão da ciência total.[1] Continuar lendo “A província da filosofia, por J. J. C. Smart”