Alguns temas moorianos, por Noah Lemos

Tradução de L. H. Marques Segundo

G. E. Moore (1873-1958)

G. E. Moore se atracou com questões sobre o conhecimento e ceticismo ao longo de sua carreira, examinando e respondendo vários argumentos céticos em diversos ensaios influentes. Moore está entre os mais proeminentes membros da tradição de senso comum na filosofia, uma tradição que inclui o filósofo escocês novecentista Thomas Reid e o filósofo do século XX Roderick Chisholm. É característico do “comum-sensismo” sustentar que de fato sabemos muitas das coisas que ordinariamente consideramos saber, e que as nossas perspectivas filosóficas deveriam se adequar ao fato de as sabermos. Thomas Reid, por exemplo, entendia que o empirismo de Hume implicava que não temos conhecimento do mundo material, do futuro, do passado, de outras mentes e de nós mesmos enquanto sujeitos contínuos de experiência. Reid considerava ter Hume mostrado que os custos do empirismo é o completo ceticismo. Diz Reid:




Um viajante de bom senso pode errar o caminho, e, sem querer, ter pego a direção errada; e na medida em que a estrada diante dele esteja adequada, ele pode prosseguir e ser seguido por outros; mas quando ele termina em lugar nenhum, não carece grande esforço para saber que errou, e talvez nem para encontrar aquilo que o enganou.

Reid sustentava que uma vez que sabemos muitas das coisas que o empirismo excluiria, tanto pior para o empirismo. Chisholm tem uma postura similar: “Rejeitamos a perspectiva cética de acordo com a qual não há razão para acreditar que as premissas de um argumento indutivo sempre confiram evidência à sua conclusão. Se a perspectiva cética fosse verdadeira, então nada saberíamos acerca do mundo à nossa volta”. Chisholm sustenta que uma vez que sabemos muito sobre o mundo à nossa volta, tanto pior para o ceticismo quanto à indução.

Um tema similar perpassa todos os escritos de Moore. Em seu ensaio de 1919, “Some Judgments of Perception”, Moore começa por considerar algumas perspectivas sobre a percepção e a possibilidade do conhecimento perceptual. Ele rejeita certas perspectivas filosóficas devido a elas implicarem que não podemos saber vários fatos sobre o mundo externo:


Parece-me, contudo, uma refutação suficiente de perspectivas como essas, simplesmente apontar para casos nos quais sabemos tais coisas. Afinal, isso, você sabe, é um dedo: não há dúvida de que seja: eu sei que é, e você também sabe. E penso que podemos, seguramente, desafiar qualquer filósofo a oferecer um argumento em favor ou da proposição de que não sabemos que seja, ou da proposição de que não é verdade que seja, que dependa em algum ponto de alguma premissa que, longe de qualquer comparação, seja menos certa do que a proposição que pretende atacar.

Nessa passagem Moore faz duas observações. Primeiro, ele afirma que uma vez que sabemos vários fatos sobre o mundo externo, como “isto é um dedo”, segue-se que qualquer argumento ou perspectiva filosófica que implique que não sabemos tem de estar errada. Qualquer argumento filosófico que implique que não sabemos tais coisas têm ou de ter uma premissa falsa ou ser inválido. Segundo, Moore afirma que qualquer argumento filosófico que conclua que não sabemos tais coisas repousa, em algum ponto, em alguma premissa que seja menos razoável de acreditar do que na proposição que pretende atacar. Assim, Moore diria que a proposição de que não sei que isto é um dedo é mais razoável de ser crida do que uma ou mais premissas ou suposições de qualquer argumento cético que a negue.

Cerca de vinte anos mais tarde Moore tem uma postura similar. Ele alega que a perspectiva cética de Bertrand Russell dependa de premissas ou suposições que são menos certas do que a proposição que visa atacar. Russell sustentou que não temos e não podemos ter conhecimento certo de coisas como “Isto é um lápis” ou “esta pessoa é consciente”. Russell sustentava que tais proposições poderiam, no máximo, serem prováveis a nós. Após longo exame da perspectiva de Russell, Moore escreve:


A perspectiva de Russell de que não sei com certeza que isto é uma caneta ou que você é consciente depende, se estou correto, de não menos que quatro suposições distintas: (i) Que não conheço essas coisas imediatamente”; (2) Que elas não se seguem de qualquer coisa ou coisas que conheço imediatamente; (3) Que, se (1) e (2) são verdadeiros, a minha crença ou o meu conhecimento deles tem de ser “baseado num argumento analógico ou indutivo”; e (4) Que aquilo que é assim baseado não pode ser conhecimento certo. E aquilo que não posso deixar de me perguntar é: será de fato tão certo que essas quatro suposições sejam verdadeiras quanto eu saber que isto é um lápis e que você é consciente? Não posso deixar de responder: parece ser mais certo que sei que isto é um lápis e que você é consciente do que qualquer uma dessas quatro suposições serem verdadeiras, e muito menos as quatro. […] Concordo com Russell que (1), (2) e (3) são verdadeiras; contudo, não sinto que nenhuma das três sejam tão certas quanto que isto é um lápis. Mais ainda: não penso que seja racional estar tão certo de qualquer uma dessas quatro proposições quanto da proposição de que sei que isto é um lápis.

Moore aqui diz que concorda com Russell no tocante a não saber imediatamente que isto é um lápis. Ele endossa, com certa cautela, a perspectiva de Russell de que tal conhecimento tem de se basear em algum argumento analógico ou indutivo. Contudo, Moore insiste que não é tão racional estar tão certo de quaisquer uma das quatro suposições de Russell quanto estar certo da proposição de que ele sabe que isto é um lápis.

Como vimos, Moore diz que sabe várias coisas sobre o mundo externo e sobre os estados mentais de outrem, e que é mais racional para ele acreditar nessas proposições do que várias premissas de argumentos céticos. Em “A Defense of Common Sense” ele lista uma variedade de proposições que ele alega saber com certeza que são verdadeiras. Dentre elas estão proposições sobre objetos externos, sobre o passado, e sobre os estados mentais de outrem. Ele alega saber, por exemplo, que a terra já existia muitos antes de ele nascer, e que, uma vez que ele nasceu, ele estava ou em contato com, ou não muito distante, da superfície da terra. Ele também alega que quase todo mundo sabe que tipos similares de proposições são verdadeiras.

Mas como ele as conhece? O que torna racional para ele acreditar em tais coisas? Moore não nos oferece uma resposta satisfatória a essas perguntas. Ele não nos oferece uma teoria epistemológica bem desenvolvida sobre aquilo que torna uma crença racional ou uma instância de conhecimento. Na verdade, as posições de Moore sobre como sabermos várias coisas sobre o mundo externo parecem ter mudado ao longo de sua carreira. Já vimos, por exemplo, que Moore cautelosamente endossa a perspectiva de Russell de que não sabemos imediatamente que isto é um lápis, e que tal conhecimento se baseia numa inferência analógica ou indutiva. Contudo, anteriormente em sua carreira Moore sustentava um ponto de vista diferente:


É óbvio que não posso saber que sei que o lápis existe a menos que eu saiba que o lápis exista; poderíamos pensar, portanto, que a primeira proposição só pode ser mediadamente conhecida — conhecida meramente porque a segunda é conhecida. Penso, contudo, ser necessário fazer uma distinção. Do mero fato de que eu poderia não saber a primeira a menos que eu saiba a segunda não se segue que eu saiba a primeira meramente porque sei a segunda. Na verdade, penso que sei ambas imediatamente.

Moore aqui diz saber imediatamente tanto que o lápis existe e a proposição epistêmica de que ele sabe que o lápis existe. Ele nega implicitamente que o seu conhecimento de que o lápis existe tem de ser basear em argumentos analógicos ou indutivos. Em qualquer caso, embora Moore pareça ter sustentado diferentes perspectivas sobre como ele sabe vários fatos sobre o mundo externo, ele insiste que os sabe.

Na verdade, Moore sustentava que a fim de sabermos algumas coisas não é necessário saber que como as sabemos, e não é necessário saber qual é a evidência de que dispomos. Em “A Defence of Common Sense” Moore escreve:


Se, por exemplo, sei que a terra já existia muito antes de eu ter nascido, certamente sei isso porque já sabia outras coisas no passado que são evidência para tal. E é certo que não sei exatamente que evidência era essa. Porém, tudo isso não me parece uma boa razão para se duvidar que sei disso. Penso que todos nós nos encontramos nessa estranha posição de sabermos muitas coisas, e que sabemos ter de dispor de evidência a seu favor, muito embora não saibamos como as sabemos, i.e., não sabemos qual é a evidência.

Moore afirma que sabemos algumas coisas porque sabemos outras coisas que são evidência em seu favor. Mas pelo menos em alguns casos desse tipo, Moore nega que tenhamos de saber qual é a evidência. Podemos saber algumas coisas sem saber como as sabemos. Talvez Moore dissesse algo similar sobre a crença racional, nomeadamente, que a fim de termos uma crença racional, não é preciso ser capaz de dizer o que a torna racional ou qual é a evidência de que dispomos a favor dessa crença. Novamente, Moore afirma ter, em seu “Proof of External World”, “evidência conclusiva” de que está desperto e não sonhando:


Tenho, sem dúvida, razões conclusivas para afirmar que não estou sonhando neste momento; tenho evidência conclusiva de que estou desperto: mas isso é bastante diferente de ser capaz de prová-lo. Eu não seria capaz de dizer-te qual é toda a minha evidência; e para lhe dar uma prova isso seria no mínimo necessário.

Embora Moore alegue ter evidência conclusiva, evidência forte o bastante para concluir que está desperto e não sonhando, ele não pode dizer qual é toda a evidência.

Moore também nega que o conhecimento do mundo externo sempre necessite de prova. Ele nega, por exemplo, que o seu conhecimento de que isto é um lápis tenha de se basear numa prova de que o lápis exista. Como vimos, ele alega saber essa proposição imediatamente, e com isso supõe que o saiba sem prova. Similarmente, em seu “Proof of External World”, ele insiste saber que tem mãos e que está desperto muito embora não possa provar tais coisas.

Assim, se perguntarmos como sabemos vários fatos sobre o mundo externo, Moore não tem uma teoria epistemológica bem desenvolvida. Mas disso não segue de modo algum que ele nada tenha de relevante ou importante a dizer. Ele nos diz que para sabermos alguns fatos externos, não precisamos saber qual é a evidência de que dispomos, não precisamos ser capazes de prová-los, e não precisamos saber como os sabemos. Ademais, ele nos diria que não precisamos ter uma teoria epistemológica bem desenvolvida sobre como alguém sabe alguns fatos externos ou fatos epistêmicos a fim de sabê-los. A fim de saber alguns fatos externos e alguns fatos epistêmicos não é preciso ser um epistemólogo.

Seção 1, de “Moore and Skepticism”, de Noah Lemos. Retirado de The Oxford Handbook of Skepticism, org. John Greco. OUP, 2008, pp. 330-333.

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